"Putinha!" . Ela me dizia enquanto puxava meus cabelos. "Putinha! Você não passa disso! Sabe por quê?" . Não me lembro o porquê, lembro-me dos gritos e quase sinto o desespero no meu couro cabeludo de novo. Eu queria dizer "tire todo o meu cabelo de mim de uma vez, mas não me machuque tanto!". Lembro-me de todos os gritos, mas não sei mais identificar as palavras ou as razões para que tivéssemos chegado àquele ponto. Lembro da humilhação que senti, mas não sei se alguém viu a cena, não me recordo se a casa estava vazia. Andamos alguns metros naquela posição. Ela me puxava pelos cabelos como se eu fosse uma boneca velha. Era como se eu fosse sua boneca feia. Que raiva da boneca feia! Porque, não tendo outro brinquedo por perto, é com a boneca feia que você tem que brincar. É tão inevitável a vontade de machucar dizendo "PUTINHA!", que vontade de machucar de verdade, de descobrir do que é feito aquele bicho que emite sons. Aposto como ela sentia vontade de enfiar as unhas em minha carne e ver se o enchimento da boneca velha se espalharia pelo chão. Desejaria, talvez, que eu reagisse, que eu virasse outra pessoa. Mas do chão levantei-me e continuei respirando da mesma forma de antes, com algum ódio que escondia debaixo de minhas costuras malfeitas.
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